Ano após ano, o Clube do Remo não consegue se impor dentro de campo, e fica amargando a permanência na mesma Série, torcendo para não ser rebaixado. As competições nacionais não rendem e, nas regionais – Estadual e Copa Verde –, ficar entre os melhores colocados é como se fosse um prêmio de consolo para a torcida que comparece nos estádios.

Os ex-jogadores que fizeram história dentro do clube apontam os principais fatores que atualmente impedem o Remo de brilhar nas competições. “Não é coincidência o que está ocorrendo com o Remo ano após ano. Isso tudo, infelizmente, é reflexo de administrações desses períodos. A má administração, as contratações absurdas, a vaidade tremenda de pessoas que administram o Remo e só pensam nelas, e não no clube. Diferente do Paysandu, que agora tem um norte e isso reflete em campo, e a gente sabe que deveria ser melhor, mas com o passar do tempo o Paysandu vai ser potência e o Remo cada vez se afundando mais”, avalia o ex-atacante azulino, Mesquita.

Mesquita aponta a vaidade como o principal problema do Leão (Foto: Wagner Santana)

Que os problemas fora das quatro linhas refletem dentro de campo, isso todo mundo já sabe, mas a solução pode também estar em tentar se espelhar em outros clubes, é o que sugere o ex-jogador do Remo Marquinhos Belém, que teve seis passagens pelo Baenão e lamenta as últimas atuações do Leão. “Infelizmente, eles (diretoria do Remo) não querem copiar o que aconteceu no Paysandu. Para começar a se estruturar é preciso organizar primeiro a situação financeira”, ponderou Marquinhos, ponderando ainda sobre a gestão de futebol que o clube tem feito nos últimos anos. “Você percebe quando o jogador vem com rodagem, ele vem sucateado. Às vezes, também, esse jogador que chega aqui não sabe jogar em um time de massa, com a imprensa cobrando e a torcida mais ainda”, analisa Marquinhos.

A gestão, ou a falta dela, faz também muitas vezes os patrocinadores se afastarem do clube para não associarem suas marcas a algumas lambanças feitas por diretorias. “O Remo está viciado, porque está sem credibilidade no mercado, tanto pelas pessoas que estão há tempos no clube como também pela falta de transparência. Um exemplo foi aquele assalto que até hoje não tivemos uma resposta”, ressalta Marquinhos.

A voz das arquibancadas precisa ser ouvida


Quem lota as arquibancadas e há anos sabe exatamente o valor que a bilheteria tem para manter o Clube do Remo, é a torcida. Na abertura do estadual, por exemplo, mais de 30 mil torcedores decidiram que o apoio no início da competição era o mais correto a se fazer, e eles lotaram o lado A do Mangueirão. Assim foi também no clássico. Esse apoio tem sido fundamental para que o Leão de Antônio Baena, conhecido por várias participações em competições nacionais e regionais, continue vivo, mas os azulinos não estão satisfeitos com o que têm visto – ou não têm visto –, dentro de campo.

A última vez que o clube esteve na Série B do Brasileiro foi em 2007, há mais de dez anos. O time é (re)formado ano após ano, não ganha nem nas competições regionais, como a Copa Verde, por exemplo, onde perdeu inclusive para clubes sem tradição alguma. A mudança de postura parece ser simples, e a receita é a mesma dada pelos torcedores quando se questiona o que fazer para o time melhorar, mas os interesses pessoais dos cartolas, segundo os torcedores, estão acima do Clube do Remo.

“Algumas pessoas não veem o bem do Clube, seja por status ou vantagem financeira. Tirando esse pessoal da administração, já é um grande caminho. Aí, depois disso, pode-se começar a pensar mais nos atletas da base, têm valores que não são usados ou são usados de forma errada, aí acabam dando errado. Poderíamos abrir votação para sócio-torcedor, que é uma galera nova que está vendo o que ocorre todos esses anos, mas isso é muito difícil de acontecer”, pondera o torcedor azulino, Rodrigo Gonçalves.

A má gestão não decepciona apenas Rodrigo, que sonha com um futuro de conquistas para o Leão, para poder levar o primogênito Benício Ferreira para o estádio e contar como o Remo conseguiu se reerguer, mas também é o sonho de outros milhares de torcedores, como a dona de casa Idalina Barbosa, 53, que frequentou por muitos anos o Baenão. “Falta organização, seriedade, ideias novas e menos vaidade. O Remo tem que se modernizar em todos os sentidos, acabar com essa desses cartolas se acharem os donos do clube. O único dono do clube é o seu torcedor e pronto”, ressaltou Idalina.

Atuação do Condel em debate

Ângelo Carrascosa, presidente do Condel, afirma que o órgão cumpre seu papel, mas é rebatido por conselheiros de oposição (Foto: Antônio Melo)

O Conselho Deliberativo é o órgão do clube responsável por fiscalizar as ações da diretoria, propor modificações estatutárias, conceder títulos a associados, investigar diversas irregularidades, entre outras funções. Funções essas que passam a ser questionadas depois das contas do clube na atual gestão serem aprovadas, mesmo com irregularidades. Mas, para o presidente do Condel azulino, Ângelo Carrascosa, o Condel tem, sim, voz e cumpre com o seu papel estatutário. “Após debates, o Condel em maioria decidiu aprovar as contas com ressalvas, e agora estamos discutindo o segundo quadrimestre. O Condel tem brigado e lutado para que a gestão seja o mais transparente possível dentro do que impõe o estatuto”, ressaltou.

A má gestão de um clube, quando aliada a apenas interesses pessoais, gera desconforto que sai das paredes de concreto que abrigam as salas de reuniões e chega discretamente ao campo. Carrascosa admite que a gestão de um clube reflete em campo, principalmente quando ela é feita de forma irresponsável, no caso de atrasos de pagamentos. “Acho que a atual diretoria de futebol demonstra uma responsabilidade dentro do que o Remo pode pagar, mostrando as contas ao conselho e sei que esse é o caminho com resultados no futebol. Se a gestão mantiver resultados positivos, o Remo vai colher frutos dessa responsabilidade de gestão”, ponderou.

POR OUTRO LADO

“O problema é que uma parte do conselho é composto por beneméritos e a outra parte são os próprios diretores, o que é um absurdo. Como essas pessoas podem aprovar as próprias contas?”, Aline Porto, conselheira azulina

Na avaliação da conselheira Aline Porto, as vozes no Condel não são atuantes, e o maior exemplo disso foi a aprovação de contas do primeiro quadrimestre de gestão. “O problema é que uma parte do conselho é composto por beneméritos e a outra parte são os próprios diretores, o que é um absurdo. Como essas pessoas podem aprovar as próprias contas? Inclusive, aconteceu um fato em uma das votações, que alguns diretores reprovaram as contas e sofreram retaliações de que iriam perder o cargo; e na outra votação teve diretor que nem foi porque não se achava à vontade pra votar contra a aprovação, e se votasse ia receber retaliação”, lamentou Aline.

Ela ressalta ainda que a falta de transparência pode até não afetar diretamente o time em campo, mas indiretamente tem várias responsabilidades. “O problema do Remo é falta de dinheiro, mas se você tem uma empresa você não vai querer aliar a sua marca a um clube que não consegue nem ser transparente com as próprias contas. O Remo diz que não tem dinheiro, mas vê essa bilheteria dando lucro, mas a gente não sabe o que fazem com o dinheiro que entra. Isso acaba influenciando em campo também”, ponderou a conselheira.

(K.L. Carvalho/Diário do Pará)