Há um vídeo circulando na internet com as imagens da preleção do Remo antes do histórico “Re-Pa do Século”, domingo, no Mangueirão. Paulo Bonamigo, Marlon e Lucas Siqueira aparecem falando aos companheiros em meio ao círculo que normalmente se forma nos vestiários. São palavras fortes, com claro objetivo motivacional, capazes de mexer com os brios de cada um dos atletas.

A fala de Marlon é comovente. Ele lembra o período de vacas magras quando chegou ao Evandro Almeida ainda muito jovem, às vezes sem grana para a alimentação, muito menos para o preparo necessário a um profissional da bola. Com voz embargada, enfrentando a emoção, ele pôs as mãos no joelho e comoveu os companheiros.

Bonamigo dedicou atenção às questões de campo e à necessidade de concentração absoluta. Observou que um duelo decisivo não permite distrações, nem perda de tempo amarrando chuteira. Fechou sua intervenção lembrando, profeticamente, que jogos assim são ganhos em lances de inspirados, de puro talento.

A falta cobrada por Felipe Gedoz, que deu origem ao gol de Salatiel, surgiu de um lance treinado e executado com perfeição e criatividade. A bola ganhou um efeito que atrapalhou a defesa do goleiro Paulo Ricardo.

O depoimento de Lucas Siqueira foi o mais arrebatado e instigante. Ele circulava olhando um a um dos companheiros abraçados naquele círculo que imitava um anfiteatro grego, tendo a imagem de Nossa Senhora de Nazaré junto à parede. O capitão optou por fazer uma associação entre o time azulino e o leão, considerado o rei dos animais.

Disse, quase gritando, gesticulando sempre, que o leão não é a mais forte, nem a mais rápido das grandes feras, mas é respeitado e temido pela atitude. Não recua, não teme e nem hesita diante de dificuldades. Concluiu dizendo que ninguém, nenhum leonino ali presente, podia deixar passar a oportunidade de garantir o acesso ainda no domingo.

Foi estabelecida ali a perfeita conexão com as necessidades que viriam no clássico frente ao maior rival. O que os três falaram, em poucos minutos, aguçou o instinto vencedor e adicionou compromisso a um grupo de jogadores que passou a semana exercitando técnicas e táticas de campo.

Lá no gramado, durante a semana, a falta que garantiu a vitória (e o acesso foi exaustivamente repetida em cobranças. Outro vídeo exibe Bonamigo falando a Gedoz, meio brincando e meio sério, que ele agradeceria quando saísse o gol de uma cobrança em dois tempos, como no Re-Pa.  


 

 

As façanhas de Pikachu como lateral-artilheiro

 

Os jornais do Rio destacaram a marca de 100 gols, atingida por Yago Pikachu com a cobrança de pênalti contra o Botafogo, domingo. Cometem um equívoco, segundo informa à coluna o pesquisador Jorginho Neves: foram 103 gols consignados pelo lateral revelado no PSC.

Com a camisa alviceleste, ele balançou as redes 64 vezes, de 2011 a 2015. A partir de 2016, já como atleta do Vasco, Pikachu ultrapassaria a centena de gols. Nas estatísticas dos sites nacionais, consta que ele teria feito o 100º gol no domingo. Ocorre que, em amistosos, ele assinalou outros três.

É uma marca invejável para um jogador oficialmente de defesa, embora muita gente considere que a maioria dos gols foi anotada quando ele atuou mais à frente, como no período final no PSC e em boa parte do tempo que está no Vasco.

Já é um recorde histórico. Pikachu se iguala, em gols, a Paul Breitner, icônico e ofensivo lateral alemão daquela geração campeã de 1974, que tinha Frank Beckenbauer e Gerd Müller. Não é qualquer coisa.

 

 

Ceni se consolida cada vez mais como técnico mediano

 

Rogério Ceni divide opiniões mesmo quando era um excepcional goleiro no São Paulo. Sempre foi avaliado, por muita gente, como um arqueiro que batia muito bem na bola, tanto que virou um artilheiro a partir da perícia em cobranças de falta e pênaltis.

Não teve muita oportunidade como titular na Seleção Brasileira talvez por essa razão. Os técnicos, conservadores, sempre preferiam um goleiro-goleiro. Fosse hoje, certamente brilharia muito mais, porque a facilidade para chutes e lançamentos seria extremamente valorizada.

Rogério também era famoso pela arrogância, muitas vezes confundida com soberba e estrelismo. Era o rei no São Paulo, ídolo absoluto, sugeria contratações e – dizem – demissões também. O paraense Vélber teria sido vítima desse poder exercido com gosto e afinco pelo então goleiro.

Quando deixou os gramados, Rogério enveredou rapidinho pela função de técnico. Um jogador bem sucedido e com capacidade de liderança tem na profissão de treinador uma atividade quase óbvia. Depois de um período de preparação em grandes clubes, o ex-goleiro começou pelo próprio São Paulo e fracassou.

Depois, assumiu o Fortaleza e engrenou um bom trabalho, interrompido por uma aventura desastrada no Cruzeiro. Voltou ao tricolor cearense, de onde saiu, novamente interrompendo contrato, para assumir o Flamengo, que havia acabado de demitir Domènec Torrent.

Rogério foi tratado sempre com singular distinção e boa vontade pela mídia esportiva do Sudeste. Talvez pelo talento para entrevistas, o discurso modernoso e o porte elegante, sempre foi poupado de críticas que outros técnicos normalmente receberiam.

Todos esqueceram que há uma abissal diferença entre treinar o Flamengo e seu balaio de estrelas e o modesto Fortaleza, cuja ambição maior em campeonatos brasileiros é escapar do rebaixamento. Após fiascos recentes, com derrotas sem explicação para equipes modestas, Rogério é finalmente confrontado com questionamentos acerca de sua capacidade.

É provável que, ainda nesta semana, seja demitido. Pela terceira vez, não emplacou em grandes clubes, onde as metas são mais ambiciosas e a estrutura oferecida é mais sólida. Começa a ganhar a justificada fama de ser um alinhado técnico de times medianos. E, quando esse carimbo chega, fica difícil se livrar dele.